Autor: aerborea

  • Da desesperança e ação

    Há algumas semanas venho tentando decidir sobre o que escrever em seguida, mas sinto que a única opção no momento é a sensação de desesperança que tomou conta de muitas pessoas que conheço ou me são próximas. No último fim de semana tivemos um resultado eleitoral que foi tomado como uma derrota absoluta por quase todas as pessoas a quem tenho carinho. De fato, não é um cenário animador, o avanço de pautas que diretamente desejam a criminalização da minha existência não é algo que encaro levemente. Dito isso, sinto que tem algo na reação que venho observando que tem me incomodado um pouco.

    É evidente que um dos principais fatores que geraram a situação atual é a polarização, não da política, mas das interações sociais como um todo. Uma das principais causas desse fato é, sem dúvidas, o funcionamento prático das redes sociais. Não entrarei no óbvio movimento diretamente intencional da gerência das empresas por trás de sua existência, que claramente estão muito confortáveis com o cenário tecno-feudalista que parecemos estar ou, no mínimo, caminhar para no Ocidente. Mas além dessa ação intencional, a própria lógica fundamental por trás de algoritmos de engajamento pode atuar não apenas como potencializadora tanto da polarização e segregação de grupos online, mas também como uma ferramenta de simultaneamente cansaço contínuo e pacificação.

    O cansaço contínuo se evidencia em algumas formas distintas. Estar continuamente expostos a uma miríade de vídeos e conteúdos (cujo extremismo e desespero apenas massificam seu alcance), diretamente nos impede de ter momentos de respiro e contribui com um ciclo de desesperança que se retroalimenta. Outro aspecto envolve o fato de que o cenário de polarização do discurso, entrelaçado por questões políticas e éticas, acaba se tornando um elemento constante e eterno em nossas vidas, diferente de outros períodos na nossa democracia representativa em que isso se concentrava um tanto em períodos eleitorais. O formato mais “viral” e, portanto, o que mais nos atinge nessas redes, também favorece uma saturação sensorial, de forma a produzir maior engajamento e efeito sobre as pessoas. Nada disso, por si só, é um problema formal. Se apresentam apenas como consequências da lógica estruturante dessas redes e poderiam ser razoáveis caso houvesse uma definição mais saudável de limites e emoções, mas não temos tido muito sucesso com isso. Desejamos conexão e alcance, mas ao nos prometer isso, estas redes fundamentalmente favorecem uma lógica de massificação, alcance e choque. Além disso, do ponto de vista capitalista de uma rede do tipo, a lógica programada nelas deseja a maior presença possível dos usuários, o que atua novamente como um elemento desse loop sensorial exaustivo. O cansaço oriundo dessa sensação da inescapabilidade e desespero de qualquer cenário que as redes sociais nos apresentem, é em minha opinião a menor das questões.

    A questão mais preocupante, a meu ver, é o que considero um efeito simultaneamente pacificador e individualizante que as redes sociais, ao prometer conexão e comunidade, acabam gerando em situações como essa. Além de nos sujeitarmos a depender de uma ferramenta intrinsecamente nas mãos de quem está plenamente satisfeito com o cenário atual, me pergunto se existe algum sentido prático em compartilhar 80 stories sobre o desespero político ou uma estrela acima da aba de chats. Reconhecidas as distinções de divulgação de informações diretas e atos ou afins, há uma efetividade real em compartilhar vídeos que são vistos em sua maioria apenas por pessoas que já concordam com isso ou então por pessoas que os receberão de forma tão inflamatória que mais os afastarão da possibilidade? Sinto que não. Sinto que o ganho prático que temos com isso, é um reforço e talvez por vezes um amparo emocional, mas ao custo de sentirmos que ao compartilhar um vídeo numa rede dessas, fizemos nossa parte. “Agora sim posso considerar que fiz minha parte dentro desse cenário horrível que me é apresentado.” Não quero desmerecer o que quer que ajude cada um a suportar a realidade atualmente, mas acho que precisamos realmente considerar os efeitos pessoais dessa estrutura a qual estamos expostos. Há, sim, usos e utilidades nessas estruturas, mas talvez seja necessário repensar o quanto nossa realidade de fato está traduzida no meio digital e o quanto estamos atuando além dele.

    O fato é que o cenário já estava ruim muito antes dessas eleições e não é causado por um único indivíduo horrível ou outro. Há um movimento novamente crescente contra pessoas trans há mais de uma década. Vejo pessoas que conheço ou conheci cada vez mais dispostas a declarar o quanto gostariam que eu e todas as outras pessoas trans estivessem mortas. Não é um stories vermelho que fará com que isso mude. Muito menos se ao fazer isso haja uma redução da nossa possibilidade de ação. Sinto que precisamos considerar mais ativamente a importância da construção de redes. Me refiro a ativamente construir redes reais, presenciais e físicas. Ações contínuas em nossas vidas no dia a dia que ajudem a construir apoio e ferramentas reais de luta. Não estou sugerindo recusar o campo da disputa digital, mas apenas reconsiderar o quanto ele deve ser priorizado.

    Comunidade não é algo que possa ser ligado e desligado apenas quando convém apertar um botão. É cansativo. É diário. É agir e apoiar quando estamos cansados. É estender a mão e por vezes aceitá-la. É estar presente mesmo quando não nos convém. É oferecer o que temos quando podemos. É priorizar atividades que nos coloquem em contato com outras pessoas, mesmo quando há uma pressão social de buscar alternativas individualistas. É fazer um esporte em vez de fazer academia. É cozinhar com amigos em vez de pedir comida por aplicativo. É oferecer um ombro e pagar um café em vez de enviar um coração digital. É apoiar a livraria de rua, o cinema independente, a arte local, o bar sapatão, a ocupação, a cultura popular e tudo mais que tenta resistir. É, também, continuar a escrever, ouvir música e desenhar. É criar. É se abrir ao desconfortável, por que acreditamos que algo melhor é possível.

    Caso alguém leia esse texto, espero que não o tome como um ataque pessoal, pois também é direcionado a mim. Estamos todas cansadas e ninguém precisa disso. Gostaria apenas que servisse como uma reflexão sobre o quão ativamente estamos de fato agindo para trazer o mundo que queremos e o quanto nos convenceram que clicar duas vezes numa tela contribui para isso. Num mundo tão violento contra nossa existência e a de nossos conhecidos, tão propenso a amplificar nossa exploração e nos segregar, tentemos ainda ser gentis e construir em conjunto. Tentemos manter a esperança e a capacidade de imaginar algo melhor. E tentemos praticar a coragem de nos levantar e lutar, mesmo quando permanecer imóvel parece a única opção possível.

  • Sobre a vontade de escrever

    Não sei exatamente qual o motivo, mas venho percebendo em mim a vontade de voltar a escrever. Uns anos atrás comecei a desenhar ativamente e algo muito bom disso foi me permitir publicar os desenhos que ia fazendo, como forma de me acostumar a me expor e abrir ao ridículo um pouco. Penso que esse espaço pode servir de forma similar com a escrita.

    Outra questão tem me inspirado um pouco, a questão da memória e história de nossos grupos e lutas. Nesse último mês de agosto tive a oportunidade de participar do Percurso Memória de Mulheres LBTs no centro de Curitiba e em seguida reassisti The Watermelon Woman num cineclube em um atêlie de arte local (vou passar a citar os nomes dos locais quando escrever aqui, mas nesse primeiro post me parece específico demais). Ambas as experiências me fizeram refletir sobre como muitos registros são perdidos com o tempo e como temos dificuldade em lembrar nossa história. Isso me interessa em particular porque, quando retornei a Curitiba depois de um longo período em São Paulo, parte do meu processo de passar a conhecer a cidade e me reconectar a ela foi baseado em observar suas dinâmicas e construir mapeamentos internos delas. De fato, tenho um apreço por mapas e acabei profissionalmente me direcionando a uma área próxima como urbanista, então é parte da minha forma de analisar a realidade. Me vejo, portanto, dançando nessa interseção entre ter buscado espaços e pessoas legais e ter um apreço pela estruturação espacializada de informações sobre a cidade e seus movimentos. Talvez descrever o que observo e as correlações que faço eventualmente seja útil para reconstruir momentos e transformações dessa cidade.

    Dito isso, também não gostaria de tornar esse espaço um local excessivamente formal e técnico, gostaria de poder falar sobre pequenas cenas que observo e vivencio, minhas impressões e sentimentos. O próprio nome desse site vem de dois elementos que considero serem interesses pessoais. O primeiro seria essa observação da cidade, que percebo em como a vivencio e nas fotos que tiro, visto que as que mais me interessam tirar quase nunca envolvem pessoas. O segundo seria meus desenhos, que de forma diametralmente oposta foca quase que exclusimente em pessoas, seja por meio das sessões de modelo vivo que participo ou por meio dos desenhos de mão que passei a apreciar tanto, trazendo outro elemento para a ideia do toque. A ideia de desenhar mãos da comunidade queer vem daí, inclusive. Enquanto o conceito de olhares me remete a uma observação e interpretação interna da cidade, o conceito de toques me remete justamente à experiência humana. É preciso viver a comunidade. Eu preciso viver a comunidade. Contribuir quando possível, me importar com os outros, valorizar a luta de cada pessoa que se esforça pra sobreviver e brilha, incandescente. Nesse contexto, mãos surgiram apenas como uma curiosidade artística pessoal, talvez pela diversidade de posições que podem ter, essa falta de regularidade me agradou. Acabei preferindo desenhar mãos do que rostos, os quais pessoas tem reações muito fortes com qualquer “erro” num desenho. Mas confesso que passei a perceber o quanto mãos expressam uma individualidade e identidade, além de começar a perceber as pequenas variações entre elas. Sinto que um trabalho continuo de retratá-las tece um fio interessante, estranhamente íntimo, por algum motivo. Registrar nossas mãos será minha forma de afirmar nossa existência.

    Mas enfim, sinto que já ficou muito sério esse post e gostaria de me permitir também ser leve aqui. Então usarei como tiver vontade, seja escrevendo sobre a cidade, coisas que vivi, compartilhando fotos, mapas e desenhos. Quem sabe escrevendo meus relatos consiga sentir que faço parte desse fluxo intenso que observo com tanto carinho.