Sobre a vontade de escrever

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Não sei exatamente qual o motivo, mas venho percebendo em mim a vontade de voltar a escrever. Uns anos atrás comecei a desenhar ativamente e algo muito bom disso foi me permitir publicar os desenhos que ia fazendo, como forma de me acostumar a me expor e abrir ao ridículo um pouco. Penso que esse espaço pode servir de forma similar com a escrita.

Outra questão tem me inspirado um pouco, a questão da memória e história de nossos grupos e lutas. Nesse último mês de agosto tive a oportunidade de participar do Percurso Memória de Mulheres LBTs no centro de Curitiba e em seguida reassisti The Watermelon Woman num cineclube em um atêlie de arte local (vou passar a citar os nomes dos locais quando escrever aqui, mas nesse primeiro post me parece específico demais). Ambas as experiências me fizeram refletir sobre como muitos registros são perdidos com o tempo e como temos dificuldade em lembrar nossa história. Isso me interessa em particular porque, quando retornei a Curitiba depois de um longo período em São Paulo, parte do meu processo de passar a conhecer a cidade e me reconectar a ela foi baseado em observar suas dinâmicas e construir mapeamentos internos delas. De fato, tenho um apreço por mapas e acabei profissionalmente me direcionando a uma área próxima como urbanista, então é parte da minha forma de analisar a realidade. Me vejo, portanto, dançando nessa interseção entre ter buscado espaços e pessoas legais e ter um apreço pela estruturação espacializada de informações sobre a cidade e seus movimentos. Talvez descrever o que observo e as correlações que faço eventualmente seja útil para reconstruir momentos e transformações dessa cidade.

Dito isso, também não gostaria de tornar esse espaço um local excessivamente formal e técnico, gostaria de poder falar sobre pequenas cenas que observo e vivencio, minhas impressões e sentimentos. O próprio nome desse site vem de dois elementos que considero serem interesses pessoais. O primeiro seria essa observação da cidade, que percebo em como a vivencio e nas fotos que tiro, visto que as que mais me interessam tirar quase nunca envolvem pessoas. O segundo seria meus desenhos, que de forma diametralmente oposta foca quase que exclusimente em pessoas, seja por meio das sessões de modelo vivo que participo ou por meio dos desenhos de mão que passei a apreciar tanto, trazendo outro elemento para a ideia do toque. A ideia de desenhar mãos da comunidade queer vem daí, inclusive. Enquanto o conceito de olhares me remete a uma observação e interpretação interna da cidade, o conceito de toques me remete justamente à experiência humana. É preciso viver a comunidade. Eu preciso viver a comunidade. Contribuir quando possível, me importar com os outros, valorizar a luta de cada pessoa que se esforça pra sobreviver e brilha, incandescente. Nesse contexto, mãos surgiram apenas como uma curiosidade artística pessoal, talvez pela diversidade de posições que podem ter, essa falta de regularidade me agradou. Acabei preferindo desenhar mãos do que rostos, os quais pessoas tem reações muito fortes com qualquer “erro” num desenho. Mas confesso que passei a perceber o quanto mãos expressam uma individualidade e identidade, além de começar a perceber as pequenas variações entre elas. Sinto que um trabalho continuo de retratá-las tece um fio interessante, estranhamente íntimo, por algum motivo. Registrar nossas mãos será minha forma de afirmar nossa existência.

Mas enfim, sinto que já ficou muito sério esse post e gostaria de me permitir também ser leve aqui. Então usarei como tiver vontade, seja escrevendo sobre a cidade, coisas que vivi, compartilhando fotos, mapas e desenhos. Quem sabe escrevendo meus relatos consiga sentir que faço parte desse fluxo intenso que observo com tanto carinho.

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